_ tá foda.
_ isso em outra época já teria virado piada na sua vida, thalita.
_ o problema não é a época. É a pessoa. É ela.
_ cara, como que pode? Ela nem é seu tipo, já reparou? pensa, pensa friamente.
_ eu sei disso.
_ a única coisa que vocês têm em comum é a primeira letra do nome e um uniforme preto.
_ nem isso, o uniforme dela é um vestido rs.
_ imagino seu bom humor se você tivesse que trabalhar de vestido.
_ fico mal-humorada só de pensar.
_ aposto que nem um filme do Tarantino ela viu!
_ não sei. não tive tempo pra saber um monte de coisa. eu pensava que quando eu fosse até a casa dela, quando eu sentisse o cheiro do quarto dela, do lençol que ela dorme, esses cheiros que mostram quem a gente é, eu chegaria mais perto das coisas que ela não mostra pra ninguém, que ela esconde e não conta. mas deu tudo errado. como eu queria que essa viagem não tivesse acontecido, e tudo fosse se dissolvendo aos poucos para que eu pudesse sentir o não querer, a rejeição, esse gosto amargo da indiferença.
_ pára de ficar procurando aonde você errou.
_ não tô procurando.
_ tá sim! fica igual um detetive juntando fatos, relembrando acontecimentos, procurando evidências, onde você poderia ter sido diferente, e o que aconteceu quando ela simplesmente não quis mais. pára de ficar pensando, bem no fundo, que a culpa pode ser sua, fazendo força pra não acreditar que ela é essa, me desculpe a franqueza, filha da puta que ela está sendo com você!
_ cara... eu concordo com tudo isso! mas daqui a dez minutos posso discordar novamente. Há uma imensidão entre o que eu quero e o que eu tenho que fazer. saber o que ela quer me ajudaria muito.
_ ela não te quer! é nisso que você tem que acreditar. se ela fala que “tem que ser assim”, é mais uma prova da pessoa covarde que ela é! tem que ser assim uma pinóia! foi assim porque ela quis, e querer terminar não é o fim do mundo, é só mais uma escolha feita no planeta! Thalita, relacionamentos acabam num telefonema do mesmo jeito que começam numa troca de sorrisos, você sabe disso mais que ninguém! (desculpe a franqueza novamente).
_ eu sei disso tudo. eu só queria entender porque me custou tão caro uma coisa que não durou nada. Pra mim vale a pena quando as pessoas ficam melhores, acrescentam alguma coisa por causa de um relacionamento. Pra ela não fez diferença alguma! Fogo de palha, amor de verão, pequenos surtos que fazem bem de vez em quando.
Eu perdi muita coisa por causa dela. Mas coisas que, por serem minhas, não saíram de mim. E cara... eu ia jogar minha vida pro alto por causa de alguém que nunca viu Forrest Gump!
_ hahaha é thalita! Inacreditável!
_ hahaha tô brincando. Todo mundo sabe que eu pouco me importava se ela tinha assistido Forrest Gump ou se ela não sabia qual é meu filme do Almodóvar preferido.
_ esse é o problema. ela sabe coisa demais, inclusive que vc teria emburrecido por ela! como emburreceu, porque francamente: vc é uma pessoa muito inteligente pra ficar sofrendo por alguém.
_ essas coisas a gente não escolhe, cara.
_ aliás, qual seu filme do Almodóvar preferido?
_ Tudo Sobre mi Madre. é genial! Por mais que ela procure em sua vida as respostas que o filho queria, por mais que ela volte ao seu passado e mastigue novamente tudo aquilo que ela quis esquecer o gosto, por mais que ela passe por cima de seu orgulho e se lembre da pessoa que era, não adianta: seu filho já morreu, sem saciar sua curiosidade sobre a vida de sua mãe. Tem coisa que não adianta fazer depois.
_ viu? você sabe o que tem que fazer, thalita. não adianta fazer mais nada.
_ cara, se ela me ignorasse, me esquecesse, se eu parasse de ver, de pensar nela... amanhã eu tava feliz e sem olheira!
_ alô, brasil! ela não te quer mais!!
_ velho, que não queira! então pára de ler meu blog, pára de indireta, pára de ter que mostrar pro mundo inteiro que não me quer mais, pára com essa necessidade de me tratar mal para afirmar sabe-se lá o que dentro daquela cabeça, pára de falar comigo como se eu não tivesse feito nenhuma diferença na vida dela, pára de mostrar pro mundo inteiro que eu não incomodo, como se incomodasse o fato das pessoas não saberem disso! pára com essa mania de mostrar que tá feliz da vida, como se não tivesse que beber toda semana, como se conseguisse ficar em casa sozinha com os próprios pensamentos, tranqüila com o que eles têm a dizer. pára de se apoiar nas pessoas, como se elas precisassem notar sua felicidade instantânea. não me quer, paciência e o problema é meu! mas pára de me lembrar isso toda hora!
_ vai ver ela ta fazendo isso pra você ter raiva dela, pra te ajudar a esquecer.
_ não consigo ter raiva de quem eu gosto, ela sabe disso.
_ isso deve irritar muito.
_ o que?
_ você, cara. você irrita muito. É a pessoa mais mal-humorada do mundo, adora reclamar, é teimosa, chata, mas tem um coração gigante, não consegue nem ter raiva de alguém que só tá te fazendo mal. tudo bem que tá sendo um pouco trouxa, mas numa boa, thalita! quem tá perdendo é ela!
_ é. isso é verdade.
_ cara... vira a página e vamo embora! e dá um jeito de trabalhar menos, hein? aí, ta se acabando no trabalho e no cigarro, tem que parar.
_ capaz d’eu parar de fumar numa hora dessas!
_ investe mais nas coisas que você gosta. sei lá, você ainda pode fazer umas matérias na universidade, é uma boa hora pra fotografia.
_ comprei dois livros hoje.
_ boa. gastar é sempre terapêutico. quais?
_ felicidade clandestina, da clarice. E um de crônicas da martha medeiros, tô doida pra ler.
_ bacana. aqui, vamo embora?
_ vamo, quero fazer umas coisas na rua.
_ vou com você.